Quantas vezes as pessoas absorveram uma culpa por não ter feito, não ter dito, não ter esperado, não ter saído?! Quantas vezes parei e pensei se tava fazendo a coisa certa, se realmente tava cuidando de mim em primeiro lugar pra depois tentar fazer alguém feliz?! Há um tempo tenho me arrumado mais, tenho buscado me sentir bem, talvez pra reacender aquilo que um dia deixou de brilhar, sem motivo, sem momento exato. Provavelmente tu nem percebeu, nem notou as coisas que eu fazia por nós dois. Os mousepads que eu comprei iguais, pra ajeitar o nosso escritório, mesmo que a gente nunca tenha usado. Os horários que eu marquei no salão, que eu nem gosto de ir, mas que achei que precisava ficar mais bonita pra tentar te conquistar, fazer com que tu te apaixonasse por mim, que a gente pudesse ser aquilo que fomos um dia, a razão pela qual eu aceitei o teu pedido, as tuas promessas, as tuas desculpas. Eu andei limpando a casa também, parei de te incomodar com as tuas coisas atiradas, com a louça que tu nem gosta de lavar, achei melhor relevar pra diminuir o estresse. Também engoli os meus ciúmes idiotas, dormi quieta pra que a gente pudesse ficar abraçados, e não irritados um pra cada lado. Eu vinha fazendo várias coisas pra concertar nós dois, eu me esforcei, mesmo cansada de tentar te mostrar.
É sempre difícil passar na frente do prédio que tu trabalhava, sem ter que te esperar sair. Entrar na academia sozinha, e não ter que fazer mais um exercício que eu nem gosto muito pra poder te esperar, e também não ter ninguém pra implicar, e ajudar a levantar os pesos, e rir daquele cara que vai de camiseta de marca de whey, mas nunca faz exercício. Tem aquela maionese que tu ama na geladeira, que nunca fez muita diferença pra mim, mas tu fazia questão de comprar. E é ruim não ter o teu boa noite, não poder chegar de tardezinha e contar que a minha aula foi chata como sempre, mas agora aquele professor que eu não gostava até me cumprimenta no corredor, e que eu até tenho gostado de algumas cadeiras, mas ainda to naquela crise de existência de não saber o que fazer da vida. Agora, menos ainda. Por que eu nunca fui de fazer farra, eu nem gosto de me arrumar pra ir pra festa, eu preferia muito mais ver Legendários no sábado e comer porcaria na cama, jogar no teu notebook e depois ficar te olhando dormir. Mesmo com um milhão de defeitos, mesmo com mil motivos pra gente se separar, era muito melhor estar do teu lado, sabendo que independente do lugar que tu ia, a volta era pra nossa casa, pro nosso canto, pra nossa rotina meio bagunçada, meio esquisita.
Eu lembro como era difícil agir naturalmente sabendo que seriam os últimos momentos, o último beijo, a última tarde em casa vendo tv, a última noite... E as tuas malas sobre a cama, as tuas coisas separadas da minha. Vejo que não me sinto à vontade com outras pessoas, que a nossa intimidade era tão nossa que talvez nunca mais sinta isso. Como a gente sempre deixava pra depois, mas quando acontecia não tinha quem segurasse, por que a nossa sintonia era mais forte do que qualquer impedimento, e como tu me conhecia da cabeça aos pés, e sabia exatamente o que fazer, e como tu te sentia bem contando os teus segredos. Por que mesmo que a gente nem tenha casado, morar junto faz a gente conhecer um lado frágil do outro, os medos, os dias ruins, os sonhos, os segredos. E mesmo que eu falasse que não acreditava nem um pouquinho em casamento, e amor, e essa coisa toda melosa, eu via toda sexta-feira "o vestido ideal" pensando em como o nosso casamento seria perfeito, por que a gente gostava das mesmas coisas. E talvez fosse tocar umas músicas eletrônicas que eu nem sou muito fã, mas tu ia aguentar as minhas românticas e melancólicas também, que eu não conseguia ficar sem.
Depois me flagrei pensando que a Malhação recém tinha acabado, que nem tava tão legal e tu via comigo. E o semestre tinha acabado também, agora eram coisas novas, turmas novas, pessoas novas. E a gente também tinha acabado. Mesmo sabendo que eu descobri vários passeios pra gente fazer, e já tinha até traçado um roteiro pra gente curtir, coisa de turista mesmo, mas que podia ser legal. Hoje, por acaso vi que tinha umas músicas no meu computador que eu baixei pra uma noite que tinha pensado em fazer, qualquer dia desses que o clima estivesse bom, e que a champagne estivesse gelada. Não pra brindar alguma coisa em especial, mas nós dois, por isso era o suficiente pra comemorar. Depois também tive que apagar nossas fotos, e os vídeos que eu fiz por que queria ver daqui alguns anos e lembrar das coisas engraçadas que eu morria de rir e tu nunca entendia o motivo. Agora cada música que toca no tvz, por mais alegre que seja, só me faz sentir esse apartamento angustiado, esperando que tu chegue da faculdade e diga que a tua aula tava "normal", e comece a me encher o saco pra ir na academia.
Não ter um colo pra chorar quando tenho dor, nem quando to meio irritada na tpm, e sem motivo só quero ficar quietinha, agora me faz dormir com mil travesseiros ao meu redor. E também eu até gosto de escolher que canal quero ver, mas eu não me importava de ter que assistir Top Gear americano mesmo gostando só do inglês. Eu tenho menos roupa pra lavar, mas não fazia diferença ter que arrumar todas as tuas camisetas que sempre ficavam sujas mesmo depois de sair da máquina. E nem tenho mais que cozinhar pra ninguém, então acho que aposentei meu avental e agora passo o dia comendo salada que é mais prático. Pra ser sincera, nem tenho sentido fome, nem vontade de sair, e muito menos de estudar.
Não sei se agora os nossos sonhos ainda continuam vivos, por que ir pro Beto Carrero sozinha deve ser chato, e também conhecer a Argentina de carro, fazer o intercâmbio no Canadá, e ter dois filhos, e uma casa com uma garagem imensa pra nossa coleção de carros, e também aquele site que diz as coisas que toda a mansão tem que ver. Também a gente ia casar aqui mesmo, fazer a festa perto da família, mas não ia vir muito pro Brasil, por que a gente combinou de conhecer o mundo, e fazer aquele quadro de anotar pra onde a gente já foi... Queria um quadro todo riscado, contigo.
Eu podia passar muito tempo aqui te falando tudo que eu penso, nunca pensei que fosse fácil acabar com tudo isso, largar assim, tão rápido, e pronto, já deu. A gente vai se machucando, afinal, o final nunca é tranquilo pros dois, tem sempre alguém que sai em desvantagem, tem sempre alguém sabe lidar melhor...
Dirigir depois de te levar embora foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Até tinha posto umas músicas no meu celular, mas vi que não tinha mais o cabo, que eu tava tão acostumada a ter ali mas que era teu, e não mais nosso. Daí voltei cantando "e agora, que faço eu da vida sem você, você não me ensinou a te esquecer..." por que Caetano sempre me fez bem. Mas nem isso fez a dor ir embora quando abri a porta e vi aquela calmaria, as luzes apagadas e eu, sozinha. A noite mais longa. Qualquer programa de tv me faz lembrar, e também a tua parte no armário vazia, e o escritório sem as tuas coisas...
O vazio, mais do que na casa, tá aqui dentro. Eu convivo com ele dia após dia, a gente até que tem se dado bem. Ele não tem me machucado tanto e eu também não o atrapalho. Assim que vou sabendo das tuas novidades, das tuas diversões, teus novos anseios, sonhos, vontades, vou me sentindo mais distante. E agora essa tua mania de me chamar como todo mundo chama, que soa estranho por que tu nunca me chamou como todo mundo. Além de que a gente conversa como velhos amigos que já não tem mais intimidade alguma. Já não sei o que tu fez hoje, nem ontem, nem se comeu bem, se dormiu bem, e se não precisa tomar remédio pra tua rinite. E assim vejo que eu já não sou essencial, por que eu sei que fiz a minha parte, sei que ela vai ficar aí como lembranças mas que já não são uma "memória base", lembra?
Por alguns dias eu senti raiva, encarei como injustiça tudo que eu fiz ser posto fora dessa forma, mas vendo que realmente foi assim, tento guardar as coisas como momentos bons, e agora construir a minha história com os meus momentos. O que foi agora serve pra eu rir de vez em quando, e sentir saudade, como uma bolinha de alegria, e não de tristeza. E pronto, o tempo sabe o que faz.
-Juliana Gonçalves