
Após uma briga séria, eu me deitei na rua, e vendo todo aquele mundo girar eu escrevi...:
"Mãe,
Agora eu já não sei mais diferenciar meu sentimento por ti, eu tinha a esperança de um dia te ter como amiga, mas parece que cada vez mais eu me distancio desse desejo, a cada dia te vejo mais longe, sinto menos a tua falta, e vejo que estás tão longe de mim, que chego a pensar que não te importas com isso. E se eu não estivesse aqui agora? Será que eu faria alguma diferença?
Não sei se devo acreditar nessa história de amar todos os filhos iguais, por que mesmo tu não sabendo, não vendo, ou percebendo, eu já sofri demais por acreditar nos outros, e eu nem te conto mais por que não quero ser julgada. Quando eu mais precisei do teu apoio, foi quando tu mais me negaste amor, e nem percebeu.
Se tu não sabes, eu sou feliz, eu tenho um namorado, uma amiga de verdade, eu tenho recreios divertidos, eu estudo, e me orgulho disso, aproveito minhas oportunidades, gosto de festas, de sair, de me divertir, e sei que quando me esforço, sou capaz de qualquer coisa, e sempre consigo, se quer saber. Nunca, até hoje, deixei de fazer algo que eu achava extremamente certo, e vocês errado. E se alguma coisa já me impediu de voar, foi o medo de te machucar como tu fazes diariamente e nem nota, com as palavras que tu usa, da forma que tu briga comigo, e com essa mania constante de achar que eu sempre estou errada ou sou a culpada.
Posso errar, e erro constantemente e sem dúvida, mas sei que com isso, vou aprendendo a me virar. Creio que não sabes nem a metade sobre a minha vida, pois nunca estive à vontade para poder expressar aquilo que realmente está dentro de mim. E não duvide da minha maturidade, ela vai muito além do que pensas.
No fundo, só lamento pelo futuro da tua família, só lamento por perder teu papel de mãe em meio a tantas responsabilidades, decisões, e estresses. Só lamento, por tu não ter aprendido nesses 40 anos, a escutar alguém, a se importar com quem se importa contigo, a dar valor a que tu tem e nem sabe, me preocupo por saber que tu ainda não viu que o teu bem mais precioso é a tua família, e que muitas vezes tu troca pela necessidade de ter e conseguir dar tudo aquilo de material que queremos.
E de repente me pergunto, quando tu paraste para perguntar o que eu achava de ti? E depois que eu cresci quantas vezes tu disse que me amava? Quantas vezes demonstrou algum sentimento? Quantas noites voltou na minha cama para me desejar boa noite? Compara quantas vezes tu me chamaste de gorda, ou feia, e quantas fez o contrário? Eu sou não infeliz como tu pensas, muito menos pelo fato de nossas brigas, eu simplesmente me decepciono com teus atos, por tu achar que é mãe e reproduzir esse papel tão poucas vezes, e não te culpo por isso, só queria que enxergasse a falta que tu faz para nós, a vontade que nós temos de te prender aqui dentro, cada vez que entra em casa, só assim teríamos a certeza de que não te perderíamos outra tantas vezes, por dias inteiros.
Entristece-me te ouvir brigar a cada noite, e não ter coragem de olhar no fundo de meus olhos para pedir desculpas, e me aflige saber que muitas vezes te preocupa demais com o dinheiro, e não para para pensar que ele pode ser insignificante diante de uma relação entre tu e a tua família.
Eu nunca menti quando disse que já me encorajei a tirar minha própria vida, porque eu pensava que só dessa forma eu conseguiria te atingir, te fazer sentir culpa, só assim tu veria que eu posso fazer mais diferença do que tu pensas, ou pelo menos demonstra, só assim me daria valor. Mas vejo que esse caminho não seria o mais correto. Te encher de defeitos não te fará melhor, mas te fará ver que nós todos sabemos pelos grandes obstáculos que a vida está te fazendo passar, e queremos que saiba que todos os teus filhos, inclusive eu, estou do teu lado, mesmo quando não precisa. Apenas gostaria que estivesse do meu também.
“Te pergunto se você pensa em mim como eu penso em você?”